É justo dizer que agonizava num canto eletrônico, quietinho à espera do "delete final".
Mas, eis que um passeio pelo meu passado digital me faz esbarrar em suas curiosas palavras,
e me vejo, mais uma vez, redigindo o NOITÁRIO DE KAIOKE.
Então, em meio a mais uma noite de pensamentos turvos,
emerge um pensamento digno da ressurreição deste "Noitário".
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Ansiosas e emolduradas SELFIES
Uma coisa é certa e sei
que haverá pouca gente (quiçá, nenhuma gente) a discordar de mim.
Esse momento da
história humana será marcado pela profusão incalculável de fotografias que
explodem aos nossos olhos em telas multicoloridas.
E interessantemente, a
culpa por essa geração volumosa de imagens fotográficas, não é exatamente a
câmera fotográfica em essência, mas sim, um híbrido tecnológico, que como uma
singularidade, arrastou para si o poder de executar funções, antes atribuídas a
aparatos tecnológicos “monofunção”. E
essa sagacidade de atrair para si a ‘habilidade’ de outros aparatos, de modo
coerente, o tornou esperto. O que antes era telefone, se internacionalizou em
um abrasileirado smartfone, literalmente,
esperto demais para um simples telefone.
E entre todas as
funções que “surrupiou” de outros aparelhos, conquistou o não mais exclusivo poder
mágico das câmeras fotográficas. E em poucos anos, conseguiu ainda restaurar a
maldição lançada por Nêmesis, trazendo de volta à vida, não apenas um, mas,
multiplicado em milhares, encantados com a própria beleza, uma infestação de
Narcisos, que definham sem conseguir se separar de suas próprias imagens,
desprezando a vida em nome do amor que desenvolveram por si próprios.
Não creio que, ao
definhar, os atuais Narcisos consigam reerguer-se em flor.
Mas sinto, que nesse mar de
desconhecimento, a explosão das selfies advém da angustiante sala vazia do
autoconhecimento. E ao admirar a própria ignorância, Narcisos se perdem
buscando entender o que já foi dito e repetido por muitos: não é possível amar
ao outro, quando desconhecemos a humana feiura das entranhas e nos contentamos
com a estranheza do espelho que nada nos diz e apenas repete o que vê.
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